domingo, março 12, 2017

Tosa

Cabelo é como pensamento. Concordo com a letra Arnaldo Antunes. E, definitivamente, eu precisava daquele corte. Houve quem dissesse: "mas o seu já é super curto. Para quê tanta tesoura?" ou que sugerisse "por que não deixa crescer?". Não se trata apenas de estética, embora eu estivesse me sentindo a Marge Simpson...

Marge Simpson, esse é o ponto. Enxergar-se como um desenho, uma caricatura e, no fundo, de maneira não muito generosa. Não havia nada de mais na opinião alheia sobre aqueles cachos armados e amontoados numa franja que não cresce (existem arrependimentos na vida e cortar a franja que estava bem, obrigada foi desses recentes). No entanto, todos os dias eu pensava: tenho que agendar o corte, tenho que conseguir um horário. Consegui inclusive me atrasar e ser atendida. 

Na cadeira confortável, debaixo de um agradável ar condicionado que contrastava com o mormaço de São Paulo em março, os pensamentos ainda eram embaralhados. Cortar o cabelo, mudar, ficar com aquele igual diferente. Falávamos sobre amenidades, astrologia e comentei que os meus 40 se aproximavam. No início, comparando com a chegada aos 30, pontuei a falta de pique para um monte de atividades que eu fazia antes, como aula de spinning e balada até o sol raiar. Depois, achei boas tantas outras conquistas de agora.

A medida que os cachos picotados caíam no chão, o pensamento foi se oxigenando. Como é leve chegar aos 40 praticando conscientemente tantas coisas boas. Ou mesmo tentando. O "bom dia" para desconhecidos em épocas difíceis, as posturas de equilíbrio do yoga, o telefonema para a amiga simplesmente para ouvi-la, os cursos de escrita, de meditação tibetana, a jardinagem e a feitura do pão no fim de semana. Eu não tinha muito tempo para nada disso aos 30. As urgências mudaram. 

Olhei para os fios brancos que surgiam após cada tesourada. Eu ainda os escondo com cores que não têm nem nome de tom natural de cabelo, como chocolate ou bordeaux. Haverá o dia de assumi-los. Meu pensamento foi ficando mais calmo e, quando veio o finalizador e aquela mexida das madeiras restantes para os lados, eu já era outra. Mais revigorada, menos dramática porque o sol já estava se pondo, porque no caminho eu encontraria um picolé para deixar a minha língua roxa cor-de-uva enquanto o pouco vento batia no meu pouco cabelo. 


quinta-feira, março 02, 2017

Quaresma

Das lembranças da escola estadual, o mural dos corredores com frases cristãs. Surgiam algumas variações ano após ano sobre o "tempo de renovação". Havia também os discos que tocavam no fim do recreio marcando a Campanha da Fraternidade. Além da voz empostada do cantor, uma espécie de Nelson Gonçalves que não deu certo, arranhões no vinil eram frequentes. Eventualmente, perdia-se quase todo o refrão na audição. Eu ria e a professora me reprimiam apenas com o olhar. As orações antes do início das aulas ganhavam sermões adicionais que seguiam por 40 dias. Ao mesmo tempo, sempre tinha um garoto puxando meu cabelo quando o esforço para se concentrar (e não gritar) era a garantia de se livrar do castigo depois da aula. Antes de tudo acabar em chocolate, o feriado era marcado por procissões, ladainhas, véus e tons de roxo. Os tapetes de serragem nas cidades históricas me encantavam e eu adorava o cheiro de madeira no ar. Ficava ansiosa para caminhar sobre eles, mesmo com os desenhos desfeitos.

domingo, janeiro 22, 2017

Todo sábado

Certa vez perguntei se estariam lá no feriado. Depois, quis saber se durante o mês de janeiro, quando o movimento cai, tirariam umas férias.
 - Não, estamos aqui todo sábado.
A tempestade também chegou naquele dia e os dois se abrigaram debaixo da frágil lona azul.
Era preciso separar o buquê colorido do Seu Osvaldo.
Tinham prometido novas ervas para a horta da Flávia e do Ricardo, que acabaram de se mudar para o bairro.
Esperavam por Dona Sílvia, a colecionadora violetas e flores de tonalidades roxas e lilases.
Explicavam sobre a delicadeza das orquídeas para Cláudia.
Ouviam Dona Margarida falar sobre o filho que mora longe. 
- Na Califórnia tem feiras de rua muito lindas, ele me contou por skype.
Maria Rita interrompeu o papo para saber por que não encontrava samambaia.
 - Chuva demais, sol demais. Tem que ter equilíbrio, né?
Rogério havia rondado a banca duas vezes. Não sabia se astromélias agradariam.
Cristina fotografou as suculentas e postou no Instagram, mas não levou nada.
 - Além da clorofila dos gatinhos, vai levar o quê mais?
No meu trivial sempre existia lugar para variações: buquê para receber uma amiga, salsinha para usar na salada e até mesmo um vaso de kalanchoe porque reguei a minha mais do que devia. 
Olhava para os dois e aqueles semblantes me davam uma paz imensa.
Eu era rápida para escolher cebolas, batatas e bananas.
Quando chegava na esquina à esquerda, onde todo sábado eles estão, a demora era inevitável.
Flores e plantas devem ser admirados, bem escolhidos. Embora naquela banca não houvesse outra opção. 
Cada vaso, cada arranjo era embrulhado com capricho e laços coloridos. Mesmo os que não fossem para presente, ficavam envoltos em jornais cujas dobras pareciam origamis. 
Escolhi mais uma planta para ocupar o cachepô vazio da minha janela com vista para telhados.
Ganhei uma rosa, a clorofila de quatro reais pelo preço de três e o sorriso.
 - Até sábado. 



domingo, janeiro 15, 2017

Meus bons amigos

Há dias quero falar de vocês, de como dividir várias garrafas de cerveja ou abraços, para matar saudades que atravessavam meses, me fizeram tão bem. Não liguei para nenhum, não combinei absolutamente nada. Mas os encontros foram acontecendo e, quando me dei conta da passagem do tempo, já era domingo. Eu tinha que voltar. Foi a primeira vez em anos que eu não quis partir. Tudo por causa desses momentos.

Quinta-feira
Foi aquela supresa no Maletta. E tudo voltou como num filme: os shows que vimos, as risadas, o trabalho coletivo, o sonho daquele mundo melhor pelo qual lutamos.

Brindes o dia inteiro. Cerveja, café e planos de um ano mais leve, de mais encontros.

Noite com a conversa que marcou. Sobre verdades, sobre amizade ser olho no olho, sobre mais de 20 anos de convívio (que milagrosamente dispensa ligar, mandar mensagem ou postar em redes. Como se telepatia fosse possível).

Sexta-feira
Mais flanar pela velhas esquinas com aquele "não vá embora, fique um pouco mais". Drinks, alegrias e dormir tranquila como criança.

Sábado
"Onde você está? Quero pelo menos te dar um abraço". E breve é a tarde, breve é a vida. Nem precisamos dizer muito, pois teremos mais um punhado de anos juntos, não importa onde um de nós esteja.

Domingo
De passeio no mercado, de sabores tão familiares, de trilha do Caetano, de vinho e de almoço farto. Hora de partir.

São Paulo
Atravessei a semana sentando ao lado de desconhecidos no metrô, sem "dolorosas" do bar para compartilhar e com os desencontros habituais - o "vamos combinar sem falta", que também foi dito lá em junho de 2016 (e sobre isso nem insisto para que um encontro sem assunto aconteça) -, além certeza de que não preciso de nenhum esforço para contar com meus bons amigos.



domingo, janeiro 01, 2017

Nada é certo


"Ninguém avança pela vida em linha reta. Muitas vezes, não paramos nas estações indicadas no horário. Por vezes, saímos dos trilhos. Por vezes, perdemo-nos, ou levantamos voo e desaparecemos como pó. As viagens mais incríveis fazem-se às vezes sem se sair do mesmo lugar. No espaço de alguns minutos, certos indivíduos vivem aquilo que um mortal comum levaria toda a sua vida a viver. Alguns gastam um sem número de vidas no decurso da sua estadia cá em baixo. Alguns crescem como cogumelos, enquanto outros ficam inelutavelmente para trás, atolados no caminho. Aquilo que, momento a momento, se passa na vida de um homem é para sempre insondável. É absolutamente impossível que alguém conte a história toda, por muito limitado que seja o fragmento da nossa vida que decidamos tratar"

Henry Miller

Feliz 2017!


quarta-feira, dezembro 28, 2016

Agora

Agora é a pausa.
Desse turbilhão que é 2016.
Na última semana, ganhei dias de folga.
Não tive essa pausa em 2015.
Agradeço essa que tenho agora.
Agora é tomar café da manhã devagar, ouvir Tim Maia no rádio, fazer carinho nos gatos, dar um beijo no marido e fazer planos, no máximo, para uma sessão de cinema ao entardecer.
Agora é vestido solto, chinelo e expectativa de um vento na janela para aliviar o calor do momento.
Agora é revisão, é esperar por dias melhores. Mas, principalmente, aproveitar o momento.
Cravei "Leveza" na pele cinco anos atrás.
Para que seja agora, para que seja sempre.
Para que seja calmaria onde se quer turbulência.



sábado, dezembro 17, 2016

Salpicão

Eram duas velhinhas com poucas sacolas na linha azul.
Eu tentava ler, mas acabei prestando atenção no que diziam.
Discutiam (contrariadas) sobre a possibilidade de excluir o salpicão da ceia.
- Antigamente, todo mundo comia e repetia.
- Pois é. Mas e se a gente tirar as passas?
- As passas são a graça do salpicão, Maria! E, ainda por cima, tem a Rosângela que agora não come um monte de coisa.
- Ah é, dieta, né?
Estavam pensativas.
Eu também fiquei.
Antigamente, todo mundo comia e repetia mesmo.
Não tinha essa de chamar comida de "proteína", "carboidrato" ou "lactose".
Elas, por certo, nomeiam os ingredientes como frango, batata e maionese.
Sobre as passas, não sei explicar porque se tornaram tão odiadas nos últimos tempos.
E não custava nada separarem no cantinho do prato para agradar aquelas velhinhas.
Cheguei ao meu destino.
Sorri paras as duas e desci com a vontade de me convidar para jantar.