domingo, janeiro 15, 2017

Meus bons amigos

Há dias quero falar de vocês, de como dividir várias garrafas de cerveja ou abraços, para matar saudades que atravessavam meses, me fizeram tão bem. Não liguei para nenhum, não combinei absolutamente nada. Mas os encontros foram acontecendo e, quando me dei conta da passagem do tempo, já era domingo. Eu tinha que voltar. Foi a primeira vez em anos que eu não quis partir. Tudo por causa desses momentos.

Quinta-feira
Foi aquela supresa no Maletta. E tudo voltou como num filme: os shows que vimos, as risadas, o trabalho coletivo, o sonho daquele mundo melhor pelo qual lutamos.

Brindes o dia inteiro. Cerveja, café e planos de um ano mais leve, de mais encontros.

Noite com a conversa que marcou. Sobre verdades, sobre amizade ser olho no olho, sobre mais de 20 anos de convívio (que milagrosamente dispensa ligar, mandar mensagem ou postar em redes. Como se telepatia fosse possível).

Sexta-feira
Mais flanar pela velhas esquinas com aquele "não vá embora, fique um pouco mais". Drinks, alegrias e dormir tranquila como criança.

Sábado
"Onde você está? Quero pelo menos te dar um abraço". E breve é a tarde, breve é a vida. Nem precisamos dizer muito, pois teremos mais um punhado de anos juntos, não importa onde um de nós esteja.

Domingo
De passeio no mercado, de sabores tão familiares, de trilha do Caetano, de vinho e de almoço farto. Hora de partir.

São Paulo
Atravessei a semana sentando ao lado de desconhecidos no metrô, sem "dolorosas" do bar para compartilhar e com os desencontros habituais - o "vamos combinar sem falta", que também foi dito lá em junho de 2016 (e sobre isso nem insisto para que um encontro sem assunto aconteça) -, além certeza de que não preciso de nenhum esforço para contar com meus bons amigos.



domingo, janeiro 01, 2017

Nada é certo


"Ninguém avança pela vida em linha reta. Muitas vezes, não paramos nas estações indicadas no horário. Por vezes, saímos dos trilhos. Por vezes, perdemo-nos, ou levantamos voo e desaparecemos como pó. As viagens mais incríveis fazem-se às vezes sem se sair do mesmo lugar. No espaço de alguns minutos, certos indivíduos vivem aquilo que um mortal comum levaria toda a sua vida a viver. Alguns gastam um sem número de vidas no decurso da sua estadia cá em baixo. Alguns crescem como cogumelos, enquanto outros ficam inelutavelmente para trás, atolados no caminho. Aquilo que, momento a momento, se passa na vida de um homem é para sempre insondável. É absolutamente impossível que alguém conte a história toda, por muito limitado que seja o fragmento da nossa vida que decidamos tratar"

Henry Miller

Feliz 2017!


quarta-feira, dezembro 28, 2016

Agora

Agora é a pausa.
Desse turbilhão que é 2016.
Na última semana, ganhei dias de folga.
Não tive essa pausa em 2015.
Agradeço essa que tenho agora.
Agora é tomar café da manhã devagar, ouvir Tim Maia no rádio, fazer carinho nos gatos, dar um beijo no marido e fazer planos, no máximo, para uma sessão de cinema ao entardecer.
Agora é vestido solto, chinelo e expectativa de um vento na janela para aliviar o calor do momento.
Agora é revisão, é esperar por dias melhores. Mas, principalmente, aproveitar o momento.
Cravei "Leveza" na pele cinco anos atrás.
Para que seja agora, para que seja sempre.
Para que seja calmaria onde se quer turbulência.



sábado, dezembro 17, 2016

Salpicão

Eram duas velhinhas com poucas sacolas na linha azul.
Eu tentava ler, mas acabei prestando atenção no que diziam.
Discutiam (contrariadas) sobre a possibilidade de excluir o salpicão da ceia.
- Antigamente, todo mundo comia e repetia.
- Pois é. Mas e se a gente tirar as passas?
- As passas são a graça do salpicão, Maria! E, ainda por cima, tem a Rosângela que agora não come um monte de coisa.
- Ah é, dieta, né?
Estavam pensativas.
Eu também fiquei.
Antigamente, todo mundo comia e repetia mesmo.
Não tinha essa de chamar comida de "proteína", "carboidrato" ou "lactose".
Elas, por certo, nomeiam os ingredientes como frango, batata e maionese.
Sobre as passas, não sei explicar porque se tornaram tão odiadas nos últimos tempos.
E não custava nada separarem no cantinho do prato para agradar aquelas velhinhas.
Cheguei ao meu destino.
Sorri paras as duas e desci com a vontade de me convidar para jantar.

quarta-feira, dezembro 14, 2016

O buraco

Foram lançados ali alguns sentimentos e esperanças.
Nem tudo era nobre e havia também alguma pequenez.
No buraco estavam o que não mais servia, o que devia se esconder e o próprio caos.
Se fosse uma escavação, estaria fácil jogar terra por cima.
E esquecer.
Mas esquecer é o que deve ser feito, mesmo quando sentimentos e esperanças são lançados no buraco.
Esquecer é uma maneira simbólica de fechar
Um ano
Um ciclo
Uma vida
Eu sei a profundidade do meu buraco.
Só eu sei.

sexta-feira, outubro 21, 2016

A vida vai na velocidade do trem

A vida vai na velocidade do trem.
Existem as temporadas de mal dormir, de sair de casa sem tomar um café.
Vagão lotado que sequer permite, fora as derrubadas do 4G, a leitura de notícias no feed do Twitter.
Repara na moça que se maquia com destreza e decide se passará um batom.
Quase perde a estação de destino.

Existem as temporadas do despertador desligado, do dia inteiro de camisola
O eterno F5 na caixa de e-mail para ver se respondem o currículo enviado no dia anterior.
Vai ver uma exposição no centro, e não se dá conta de que escolheu a hora do pico para voltar.
Embora essa hora seja subjetiva, os trens emperraram e operam com lentidão.
Lá fora faz 35 graus e aqui dentro não está diferente.
Quase desce uma estação antes para achar o vento caminhando.

A velocidade do trem está entre o que se arrasta e voa.
A vida vai entre empurrões, entre garotos com a cara prateada pedindo um trocado.
A vida vai entre a moça que se oferece para segurar a bolsa pesada e o músico que se disse satisfeito apenas com os (poucos) aplausos no vagão.
Esqueço a proximidade de algumas estações quando passo o bilhete na catraca por instantes.
Lembro-me de todos os acessos às linhas de outras cores para ajudar o turista que parece perdido.

Por que te vas?
Hoje resolvi ouvir playlists em espanhol.
Fiquei com vontade de comer uma medialuna caprichada.
Quis ir ao show do Soda Stereo, que não existe mais.
A vida vai na velocidade do trem.




terça-feira, agosto 16, 2016

Farmácia

Tento me lembrar dos itens que faltam. Não sei se a cartela da pílula está no fim, se há o remédio para sinusite em casa. Pego apenas a solução para lentes de contato. Deveria aproveitar o colírio, embora tenha aflição de usá-lo. Misturo colírio e delírio na fila do caixa. O cara engravatado na minha frente desabotoa a camisa impecavelmente passada. "Estou um molambo", penso. Ele borrifa o desodorante ali, no meio das pessoas, no começo do dia. Paga em dinheiro, não quer o CPF na nota. Possivelmente não tomou café. Ele tem cara de café de cápsulas. Ouço um "próximo, por favor" cheio de tédio. Dou bom dia sem resposta, CPF na nota e recuso a promoção de levar duas vitaminas. Só me lembro da caixa cheia, de a a zinco, que era para ser aberta diariamente. Dispenso a sacola, jogo a embalagem na bolsa e saio de lá com olhos espremidos. Esqueci os óculos escuros. No dia anterior foi o bloquinho. Penso no quanto me identifico e me distancio do homem que usou o desodorante sem o menor constrangimento. Há meses não saio de casa com uma camisa bem passada.