terça-feira, agosto 16, 2016

Farmácia

Tento me lembrar dos itens que faltam. Não sei se a cartela da pílula está no fim, se há o remédio para sinusite em casa. Pego apenas a solução para lentes de contato. Deveria aproveitar o colírio, embora tenha aflição de usá-lo. Misturo colírio e delírio na fila do caixa. O cara engravatado na minha frente desabotoa a camisa impecavelmente passada. "Estou um molambo", penso. Ele borrifa o desodorante ali, no meio das pessoas, no começo do dia. Paga em dinheiro, não quer o CPF na nota. Possivelmente não tomou café. Ele tem cara de café de cápsulas. Ouço um "próximo, por favor" cheio de tédio. Dou bom dia sem resposta, CPF na nota e recuso a promoção de levar duas vitaminas. Só me lembro da caixa cheia, de a a zinco, que era para ser aberta diariamente. Dispenso a sacola, jogo a embalagem na bolsa e saio de lá com olhos espremidos. Esqueci os óculos escuros. No dia anterior foi o bloquinho. Penso no quanto me identifico e me distancio do homem que usou o desodorante sem o menor constrangimento. Há meses não saio de casa com uma camisa bem passada.

quinta-feira, julho 14, 2016

Um mês

Ainda procurando o porta-copos de gatos que a amiga trouxe para mim da Paris que não conheço.
Ainda tentando me encontrar.
Ainda buscando aulas de yoga, emprego e paciência com as pequenas coisas.
Meio arrumada, meio acampada e bastante cansada.
Sumi daqui por achar que caixas de mudança não são assim um repertório tão rico quanto uma viagem de férias.
Ou seriam?
Achei minha boneca Juanita, que tenho desde criança. Abri livros autografados e páginas abandonadas sinalizadas por marcadores. Um último grifo, sempre feito a lápis.
Sou muito diferente e muito igual àquela que um dia se mudou para cá.
Um mês, dois resfriados. Um inverno e um certo verão dentro do inverno. 
Amigos que revi. Amigos que sei que nosso tempo foi outro: por mais que tentemos, nada será como antes.
Já é quinta-feira.
Já estamos no meio de julho.
Preciso pintar a parede amarela, ver Picasso, comprar o ingresso para o show do Ney Matogrosso, requisitar as milhas não atribuídas na última viagem.
Especialmente, pensar em novos rumos. 
Estou onde devia estar.
Entre o caos, a poeira, a sirene estridente lá fora, o sono profundo dos meus gatos, as caixas e os meus poucos sonhos. 


domingo, maio 29, 2016

Bye bye Brasília

Hoje completo dois anos e dois meses de Brasília, com ventos de mudança soprando. Dois anos, dois meses, dois endereços, dois empregos e um sabático no meio. Em Brasília encontrei o amor da minha vida, adotei outro gatinho e fiz amigos incrivelmente especiais. Na minha habitual urgência, sei que não conseguirei me despedir de todos. Mas levo um pouco deles comigo, para sempre.
Já sinto saudades do meu calendário da revolução. Onde nos concentraremos para um mundo melhor e justo para todos? O centro do poder tem uma simbologia muito forte e me ensinou muito, especialmente sobre ouvir o outro.
Já sinto saudades dos cobogós, dos ipês, das pessoas usando tu no lugar de você, dos restaurantes naturebas, dos cafés da manhã no Daniel Briand, do "meu" parque Olhos d'Agua, da Revista Traços, da Beira Beer, de praticar yoga, de reclamar do coentro em tudo e do CCBB.
Foram dois anos e dois meses intensos, que me fizeram gostar muito de Brasília e me sentir um pouco em casa. Não sei se em algum momento da vida me sentirei em casa. Talvez por isso, eu me mude tanto.
Estava me lembrando que há 10 anos eu partia para São Paulo, para onde volto totalmente diferente, com o coração aberto, como da primeira vez, e certa de que minhas jornadas me fizeram uma pessoa melhor.
Obrigada pela acolhida, Brasília. Um beijo e até breve!

Para Bel, com todo meu afeto.


sexta-feira, maio 06, 2016

Masterpiece

Domingo o Radiohead lança seu disco. Quem me conhece, sabe que é a banda da minha vida. Pelas pistas, tenho certeza de que não será um álbum, será uma obra-prima.







quinta-feira, abril 28, 2016

Alarmes

Outro dia silenciei um dos grupos. Depois, achei melhor me despedir cordialmente. Muitos links, muitas opiniões e ninguém de fato conversando.
Penso em excluir o aplicativo todos os dias. Ele já não me manda alertas. Abro uma vez ou duas, e conto mais de 200 mensagens não lidas.
Sigo para o trabalho escutando os mais diversos burburinhos, entre os quais muitos absurdos. No ônibus, no trajeto que faço a pé, quando paro para comprar uma fruta na barraquinha.
Durante o expediente, me levanto depois de minutos mirando a tela branca, vou tomar um café. O colega me dá notícias sobre o valor inexistente de uma bolsa ligada a um programa social. Ele parece contente com a possibilidade de ver pessoas mais pobres do que ele perderem o que chama de esmola. Explico pacientemente que esse teto foi inventado. Como são olhos nos olhos, enxergo a vontade de revidar, mesmo que sem nenhum argumento convincente. Me antecipo e sugiro: busque informações confiáveis.
O iPhone vibra. Outro alarme para desarmar. Uma amiga publica um link. Sim, é um texto  jornalístico. Sim, está assinado. Não, não é uma informação confiável, mesmo sendo produzido por quem, na teoria e prática, deveria ser confiável. Suspiro, ignoro, aciono outro aplicativo. Aguardo os segundos para pular o anúncio e ouvir música.
E não é que aquela publicação de uns dias atrás, não sei como, chama a atenção de alguém que não me cumprimenta nem no meu aniversário. Por que não desativei também esta notificação? Leio. Imagino o sangue nos olhos ao me perguntar o que eu - a sabichona das humanas, a que questiona as informações - acho daquilo.
Vou tomar outro café, olhar o céu de Brasília que está particularmente bonito nesses dias tristes. Penso numa tapioca, porém como fatias de melão gelado.
Volto, respondo educadamente. Estendo a tal bandeira branca, rasgada, surrada e cansada.
Leio os e-mails com as promoções de passagens aéreas. Clico e não existe nenhuma disponível. Férias daqui dois meses. Nenhuma perspectiva de viajar. Mas gostaria imensamente de antecipá-las e dormir. Dormi, descansar, como cantou meu mestre Walter Franco.


sexta-feira, abril 22, 2016

A uma aniversariante

O repertório é o mesmo, com algumas variações. Primeiramente, as palavras de raiva e indignação. Depois, vem o espanto: não é possível que você goste dela!
Sim, eu gosto. Me dá licença?
Para muitas coisas na vida, tenho vontade de andar com um gravador. Eu faria meu exercício vocal, e minha justificativa já estaria prontinha, afinada.
Eu não preciso recorrer ao traçado, nem ao céu. Também deixaria de lado explicação sobre a generosidade dos meus amigos, tanto os que nasceram ou vieram para cá. Imagine entrar no mérito de que quando vou à padaria e peço pão de sal, sou compreendida! Falar que o clima favorece meu cabelo seria frívolo?
Então deixo os absurdos saírem.
Penso nos arredores que ainda não visitei, no Catetinho que não conheço, na fila enorme da Torre de TV, que talvez eu encare qualquer dia desses.
Penso na copeira da firma, que levanta quatro da matina e faz uma verdadeira viagem no busão lotado, pagando a tarifa mais cara do país.
Penso no segurança do prédio, com seu terno escuro no sol de rachar sempre oferecendo um bom dia. Penso nas zebrinhas e baús que param de circular no feriado e no fim de semana, limitando o plano a quem é do plano.
Penso como é absurdo que essas pessoas tão fortes e gentis que conheço sejam reduzidos a "políticos", a ponto de já ter lido que os terroristas deviam chegar aqui e matar todo mundo, inclusive eu.  Tudo por conta do poder do Distrito Federal ou de qualquer representante de outros Estados. Sem falar nos meretíssimos e meritocratas.
Converso com a copeira, com o segurança e com a faxineira, que queria levar o filho ao zoo.
Apesar da vida dura, do "você sabe com quem está falando" (vindo de fluminenses, paulistas, paranaenses, mineiros, etc) e de todos que reduzem a casa deles a algo tão desprezível, eles não trocariam Brasília por outro lugar.
Será que é o Céu?
Será que é a Catedral?
Será que é o pastel da Viçosa na Rodoviária?
Será que é o Parque da Cidade?
Será que é o Paranoá?
Então, o motivo desse gostar fica mais evidente.


terça-feira, abril 12, 2016

A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota*

Ser mulher é lidar, desde os primeiros anos, com o ódio e com a provocação constantemente.  Já fiquei calada e já chorei. No entanto, minhas melhores recordações são as de quando eu consegui revidar. Na primeira vez percebi que foi mais fácil encarar a diretora da escola e explicar por que fui para cima do Rodrigo, e rasguei o uniforme dele, do que engolir o choro. Ele chamou a tia de vagabunda. No mundo dos adultos os dois levaram cartinha para casa. A minha pena, porém, foi mais leve porque a agressão, que não se justificava, era motivada por uma causa nobre.

Também na adolescência aguentei um bocado. Marcelo, na quinta série, chegou a colocar o pé na minha frente para eu cair. Eu sabia que não teria condições de medir forças. Então, pedi aos meus pais para me mudar de escola.  Precisei descobrir o modo mais eficiente de combater a raiva dos meninos. Pratiquei a ironia quando o André, que tinha o rosto coberto por espinhas, disse que meu cabelo era ruim. Respondi que adorava meus cachos (mentira, eu não tinha autoestima naquela época e vivia de rabo de cavalo), além disso, se eu enjoasse deles, poderia fazer escova. Ele, por sua vez, tinha que nascer de novo para ver se o rosto não teria aquele aspecto de chokito.


Fico pensando que Rodrigo, Marcelo e André certamente namoram, noivaram, casaram e divorciaram, e, imagino, continuaram machistas. Podem até ter se relacionado com outros homens, o que não os transformam em menos machistas, uma vez que leio e escuto com frequência ataques vergonhosos dirigidos às mulheres por muitos deles, os gays. Não existe estudo, religião ou estilo de vida zen que faça com que eu compreenda por qual motivo a maioria dos homens odeia as mulheres. E, honestamente, não tenho o menor interesse em saber. Quando fui agressiva, quando fui cruel, quando pedi para pararem com aquilo sinto que só doeu mesmo em mim. 

*Jean-Paul Sartre